Escute as feras: quando dois pregadores se encontram a regra é clara
Partindo do livro Escute as feras, de Nastassja Martin.
O ponto de partida parece simples: uma antropóloga francesa vai à Sibéria estudar povos even, populações que vivem numa zona liminar entre floresta, gelo, caça, espírito e sobrevivência. Durante o trabalho de campo, ela é atacada por um urso. Na verdade eles se atracam e lutam. Um atacado pelo outro.
O acontecimento não aparece como acidente, vítima. O encontro com o animal rompe alguma coisa mais profunda: a estabilidade da identidade humana.
Isso fica explícito no modo como Martin escreve depois do ataque. Ela descreve uma sensação de dissolução das fronteiras entre humano e animal, cultura e natureza, sonho e vigília, corpo e mito.
A medicina reconstrói sua mandíbula.
Mas o livro inteiro sugere outra pergunta: quem retorna ?
A questão central não é apenas sobreviver ao urso. Não sei explicar e resumir na vdd essa ideal central. Irei só colocar pontos pessoais .
A floresta, no livro, não aparece como cenário romântico. Ela surge como espaço onde as categorias civilizadas começam a falhar. O pensamento ocidental funciona por separações e dualidades.
Entre os even, essas divisões não operam da mesma maneira.
O animal não é simplesmente “objeto natural”. O urso não é apenas fauna. Existe uma zona de continuidade ontológica entre as formas de vida. O encontro com o animal não é lido apenas biologicamente, mas simbolicamente, espiritualmente e existencialmente.
Por isso o ataque produz algo próximo de uma metamorfose.
Martin passa a existir numa região intermediária. Nem totalmente humana no sentido anterior, nem transformada em animal literalmente. Ela se torna algo híbrido.
Isso aproxima o livro de temas muito antigos.
Há ecos de xamanismo, de perspectivismo ameríndio, de mitologia arcaica. Se existe mais razão no corpo do que na consciência, não sei, não sei se importa.
A identidade dela é desfiguradae violentada como sentença. Ela perde o rosto.
A autora percebe algo que sociedades indígenas frequentemente preservaram e a modernidade tentou apagar: o humano não está fora da natureza.
Ele continua sendo animal.
A diferença é que passamos séculos construindo dispositivos simbólicos, urbanos e tecnológicos para esquecer isso.
Às vezes, contudo, a floresta responde.
E quando responde, não devolve metáforas suaves.
A cidade, a tecnologia, a medicina, a linguagem, a internet e os sistemas simbólicos complexos criaram a impressão de que o humano estaria separado do animal. Como se “animalidade” fosse algo inferior, primitivo, residual.
Mas talvez uma das crises contemporâneas mais profundas seja justamente o retorno daquilo que tentamos expulsar.
Os animais continuam nos olhando.
E, às vezes, devolvem algo que nossa imagem não suporta.
Há um eixo comum entre autores muito diferentes — Nastassja Martin, Donna Haraway, Brian Massumi, Juliana Fausto —: todos questionam a separação rígida entre humano e não humano.
Não se trata apenas de defender direitos dos animais.
O que esses autores colocam em questão é a própria ideia de sujeito humano.
Donna Haraway me marcou. Ela fala em “ficar com o problema”, ela está criticando uma cultura que deseja respostas rápidas, purificações morais simples e soluções tecnológicas redentoras.
Ela propõe outra coisa: aprender a habitar relações complexas.
“Fazer parentes no chthuluceno”, como escreve, significa reconhecer que existimos em redes de dependência entre espécies, bactérias, fungos, animais, máquinas, clima, ecossistemas e linguagem.
Não há indivíduo puro.
Há emaranhamento.
Porque o eu moderno costuma ser imaginado como algo fechado, autônomo e soberano. Mas talvez a subjetividade seja muito mais relacional do que imaginamos.
Nesse sentido, a relação com os animais pode operar como dispositivo clínico, ético e existencial.
Não porque os animais sejam “puros” ou moralmente superiores.
Mas porque eles nos deslocam do centro.
Um cachorro, por exemplo, percebe estados afetivos antes da formulação racional. Cavalos frequentemente respondem a tensões corporais mínimas. Gatos alteram a dinâmica espacial e afetiva de uma casa. Animais silvestres frequentemente despertam medo, fascínio e percepção de vulnerabilidade.
O animal nos obriga a lembrar do corpo.
E talvez o sofrimento psíquico contemporâneo tenha relação justamente com um excesso de abstração da vida.
O sujeito hiperconectado vive em linguagem, desempenho e imagem. O corpo torna-se projeto. A natureza vira paisagem distante. O animal é transformado em conteúdo ou mercadoria afetiva.
Mas o encontro verdadeiro com o animal frequentemente rompe isso.
O encontro produz metamorfose.
Isso é importante porque muitos povos tradicionais nunca acreditaram plenamente nessa separação moderna entre homem e natureza. Entre diversos povos ameríndios e do norte asiático, por exemplo, os animais não são apenas recursos biológicos. São agentes, presenças, perspectivas.
O animal olha, interpreta
participa.
Juliana Fausto, ao pensar uma “cosmopolítica dos animais”, desloca ainda mais a questão. A política deixa de ser exclusivamente humana. O mundo deixa de ser propriedade ontológica da espécie humana.
Há inteligência afetiva, jogo, criatividade e improvisação na vida animal.
Isso deveria nos produzir menos superioridade e mais humildade.
Talvez uma clínica do futuro precise reaprender algo que tradições arcaicas preservaram: a subjetividade não nasce apenas da interioridade humana, mas das relações que estabelecemos com o mundo vivo.
Cuidar de um animal pode reorganizar temporalidade, afeto e presença corporal. Conviver com animais frequentemente reduz dissociação subjetiva porque reinsere o sujeito em ritmos concretos.
O animal não responde prioritariamente à máscara social.
Ele responde ao corpo.
Um animal não participa completamente dos jogos simbólicos humanos. Há algo nele que escapa.
E justamente por escapar, ele nos força a sair momentaneamente do circuito da autoconsciência.
Talvez por isso tantos sujeitos contemporâneos procurem relações intensas com animais enquanto experimentam crescente dificuldade em sustentar vínculos humanos estáveis.
Não porque os animais sejam “mais fáceis”, mas porque há neles uma presença menos colonizada.
Pode ser um caminho interessante esse: A maior capacidade de coexistir.
R Prinz / cacau / nunu e amendoim
Jequitinhonha Mg

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