O planeta Terra vive um período de intensas transformações técnico científicas, em contrapartida das quais engendram-se fenômenos dedesequilíbrios ecológicos que, se não forem remediados, no limite, ameaçam a vida em sua superfície. Paralelamente a tais perturbações, os modos de vida humanos individuais e coletivos evoluem no sentido de uma progressiva deterioração. As redes de parentesco tendem a se reduzir ao mínimo, a vida doméstica vem sendo gangrenada pelo consumo da mídia, a vida conjugai e familiar se encontra freqüentemente “ossificada” por uma espécie de padronização dos comportamentos, as relações de vizinhança estão geralmente reduzidas a sua mais pobre expressão…
É a relação da subjetividade com sua exterioridade – seja ela social, animal, vegetal, cósmica — que se encontra assim comprometida numa espécie de movimento geral de implosão e infantilização regressiva. A alteridade tende a perder toda a aspereza. O turismo, por exemplo, se resume quase sempre a uma viagem sem sair do lugar, no seio das mesmas redundâncias de imagens e de comportamento.
As formações políticas e as instâncias executivas parecem totalmente incapazes de apreender essa problemática no conjunto de suas implicações. Apesar de estarem começando a tomar uma consciência parcial dos perigos mais evidentes que ameaçam o meio ambiente natural de nossas sociedades, elas geralmente se contentam em abordar o campo dos danos industriais e, ainda assim, unicamente numa perspectiva tecnocrática, ao passo que só uma articulação ético-política entre os três registros ecológicos (o do meio ambiente, o das relações sociais e o da subjetividade humana) é que poderia esclarecer convenientemente tais questões.
O que está em questão é a maneira de viver daqui em diante sobre esse planeta, no contexto da aceleração das mutações técnico-científicas. Em função do contínuo desenvolvimento do trabalho maquínico redobrado pela revolução informática, as forças produtivas vão tornar disponível uma quantidade cada vez maior do tempo de atividade humana potencial.
Mas com que finalidade?
A do desemprego, da marginalidade opressiva, da solidão, da ociosidade, da angústia, da neurose, ou a da cultura, da criação, da pesquisa, da re-invenção do meio ambiente, do enriquecimento dos modos de vida e de sensibilidade?
No Terceiro Mundo, como no mundo desenvolvido, são blocos inteiros da subjetividade coletiva que se afundam ou se encarquilham em arcaísmos, como é o caso, por exemplo, da assustadora exacerbação dos fenômenos de integrismo religioso.
Um mesmo sentimento difuso de pertinência social descontraiu as antigas consciências de classe. (Exceção seria a constituição de pólos subjetivos violentamente heterogêneos como os que surgem no mundo muçulmano.) Os países ditos socialistas, por sua vez, também introjetaram os sistemas de valor “unidimensionalizantes” do Ocidente. O antigo igualitarismo de fachada do mundo comunista dá lugar, assim, ao serialismo de mídia (mesmo ideal de status, mesmas modas, mesmo rock etc).
No que concerne ao eixo Norte-Sul, dificilmente pode-se imaginar que a situação melhore de maneira considerável. Certamente é concebível que a progressão das técnicas agroalimentares acabem por permitir a modificação dos dados teóricos do drama da fome no mundo. Mas na prática, enquanto isso, seria totalmente ilusório pensar que a ajuda internacional, da maneira como é hoje concebida e dispensada, resolva duradouramente qualquer problema que seja!
A instauração a longo prazo de imensas zonas de miséria, fome e morte parece daqui em diante fazer parte integrante do monstruoso sistema de “estimulação” do Capitalismo Mundial Integrado. Em todo caso, é sobre tal instauração que repousaa implantação das Novas Potências Industriais, centros de hiperexploração tais como: Hong Kong, Taiwan, Coréia do Sul etc.
No seio dos países desenvolvidos reencontramos esse mesmo princípio de tensão social e de “estimulação” pelo desespero, com a instauração de regiões crônicas de desemprego e da marginalização de uma parcela cada vez maior de populações de jovens, de pessoas idosas, de trabalhadores “assalariados”, desvalorizados etc.
Assim, para onde quer que nos voltemos, reencontramos esse mesmo paradoxo lancinante: de um lado, o desenvolvimento contínuo de novos meios técnico-científicos potencialmente capazes de resolver as problemáticas ecológicas dominantes e determinar o reequilíbrio das atividades socialmente úteis sobre a superfície do planeta e, de outro lado, a incapacidade das forças sociais organizadas e das formações subjetivas constituídas de se apropriar desses meios para torná-los operativos.
No entanto, podemos nos perguntar se essa fase paroxística de laminagem das subjetividades, dos bens e do meio ambiente não está sendo levada a entrar num período de declínio. Por toda parte surgem reivindicações de singularidade; os sinais mais evidentes a esse respeito residem na multiplicação das reivindicações nacionalitárias, ontem ainda marginais, que ocupam cada vez mais o primeiro plano das cenas políticas.
Um outro antagonismo transversal ao das lutas de classe continua a ser o das relações homem-mulher. Em escala global, a condição feminina está longe de ter melhorado. A exploração do trabalho feminino, correlativa à do trabalho das crianças, nada tem a invejar aos piores períodos do século XIX! E no entanto uma revolução subjetiva ascendente não parou de trabalhar a condição feminina durante essas duas últimas décadas. Ainda que a independência sexual das mulheres, relacionada com a disponibilidade dos meios de contracepção e aborto, tenha crescido de forma bastante irregular, ainda que o crescimento dos integrismos religiosos não cesse de gerar uma minoração de seu estado, alguns indícios levam a pensar que transformações de longa duração – no sentido de Fernand Braudel – estão de fato em curso (designação de mulheres para chefia de Estado, reivindicação de paridade homem-mulher nas instâncias representativas etc).
A juventude, embora esmagada nas relações econômicas dominantes que lhe conferem um lugar cada vez mais precário, e mentalmente manipulada pela produção de subjetividade coletiva da mídia, nem por isso deixa de desenvolver suas próprias distâncias de singularização com relação à subjetividade normalizada. A esse respeito, o caráter transnacional da cultura rock, do punk, é absolutamente significativo: ela desempenha o papel de uma espécie de culto iniciático que confere uma pseudo-identidade cultural a massas consideráveis de jovens, permitindo-lhes constituir um mínimo de Territórios existenciais.
Resta-nos a esperança de que surjam novos focos de produção de subjetividade, novas formas de educar, novos grupos micropolíticos, novas frentes capazes de apropriação da subjetividade em todo mundo, em grande escala, para só assim conseguir fazer frente a tudo que lamentamos cotidianamente.
Em relação a prática da saúde mental, da psiquiatria , da psicologia, da raps, por sua vez, será levada a reinventar a relação do sujeito com o corpo, com o fantasma, com o tempo que passa, com os “mistérios” da vida e da morte. Ela será levada a procurar antídotos para a uniformização midiática e telemática, o conformismo das modas, as manipulações da opinião pela publicidade, pelas sondagens etc. Sua maneira de operar aproximar-se-á mais aquela do artista do que a dos profissionais “psi”, sempre assombrados por um ideal caduco de cientificidade.

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