Proust

Em busca do tempo perdido se insere em uma tradição, a do romance de formação. Proust o escreve em primeira pessoa, não como os mestres realistas, portanto, mas como nosso bruxo Machado de Assis, seu precursor, se me permitem. Proust estava muito bem inserido na sociedade francesa, digo economicamente. Seu prestígio também vem daí, do seu lugar social, abastado e conservador. Ele foi agraciado com o prêmio Goncourt, um dos mais prestigiados do país. Porém, depois de ter ganho o prêmio com o primeiro tomo, escreveu muitos outros, e seu romance não tem nada de conservador, muito pelo contrário.

Proust tem uma escrita absolutamente singular, poética, eu diria, porque seu romance é antes de mais nada construído pelo ritmo dessas frases que parecem não ter fim. Do ponto de vista da frase, ou sintaticamente, Proust continua o que Mallarmé começou na poesia.

Além disso, Proust era um teórico, um crítico literário e de arte. Em Em busca do tempo perdido podemos encontrar além de discussões sobre teatro, música, literatura, um debate sobre estética no sentido mais amplo do termo, um debate filosófico, entre Proust e Henri Bergson, em torno do tempo; além do retrato de uma sociedade em plena transformação na virada do século. Estão representadas todas as classes sociais. Embora Proust tenha morrido antes da Segunda Guerra, ele viveu e retratou o affaire Dreyfus que dividiu a sociedade francesa em torno ou a partir do antissemitismo, e em seguida, ele vai analisar a Primeira Guerra mundial, sob o mesmo ângulo, dizendo que agora os franceses faziam com os alemães o que outrora fizeram com os judeus. Ele está interessado em discutir e criticar as teorias da raça e do Estado nação que surgiram em seu tempo e além disso, tratar de sexualidade.

Proust também era contemporâneo de Freud e além do tempo, da vida de um artista e de sua formação, da sociedade francesa entre o século XIX e o XX, ele também quer pensar um inconsciente literário e o faz com uma teoria da sexualidade que visa revisar o que se entendia por homossexualidade. E é nesse ponto que a originalidade e a ousadia de Proust encontram Deleuze e, também, Guattari.

A questão mais evidente, nomeada no título é o tempo, a teoria da memória involuntária que Proust coloca em cena no romance, a saber, a questão de saber o que a possibilidade de que possamos nos deparar com um cristal puro de tempo, por acaso, ao cruzar uma esquina ou chegar em algum lugar, – um instante de felicidade reencontrado num passado onde acreditávamos que só havia existido sofrimento-, nos diz sobre a natureza da nossa experiência.

Deleuze quer pensar de que forma o narrador proustiano navega por tantos mundos distintos e seus signos particulares, os signos da vida mundana, da arte e do amor. De que forma uma vida se tece entre esses mundos e suas diferenças. Qual a natureza dessa vida de artista, o que é isso a literatura, a verdadeira vida vivida?

Esse livro, Proust e os signos, testemunha o encontro entre Deleuze e Guattari, Deleuze reescreveu o livro depois de 1969. Esse encontro transformou a maneira como Deleuze lia Proust e a questão mesma da sua filosofia por trinta anos. O conceito guattariano de transversalidade está por trás dessa transformação e desse movimento de décadas que uniu os dois autores. 

Deleuze vai pensar a questão do inconsciente literário proustiano, a saber, o que significa o desejo “invertido” supostamente homossexual a partir da maneira como Proust estabelece um paralelo entre a sexualidade de um casal de “homens” e uma abelha e uma flor. A comunicação entre os dois sexos que nos habitam não existe, somos como vasos fechados, caminhos que se bifurcam, não sem inventar acasos surpreendentes. Proust quer pensar o caráter singular dessa relação.

Além disso, transversalidade é um conceito que Guattari extrai da clínica e que funciona como um norte metodológico dentro dos trabalhos que serão posteriormente desenvolvidos por ele e Deleuze. A princípio, na clínica, a transferência funciona de forma transversal, transversal poderia ser uma forma de organização política, portanto, conclui Guattari, em Psicanálise e transversalidade ela não é nem vertical nem horizontal. É transversalmente que Deleuze e Guattari vão procurar pensar a vida social e a história, daí a importância da semiótica, pois é através dos signos, sejam eles significantes ou a-significantes que atravessamos mundos distintos.