Quem dita o que é normal e o que é patológico? Quem tem esse poder para dar e usar? E se pensarmos as crianças no espectro autista fora de uma lógica normativa de patologização? Que caminhos podemos traçar para nos relacionarmos de forma menos intrusiva com esses indivíduos que “negam” o modo de estar no mundo do “sujeito universal”? Tanto nos ambientes públicos, domésticos, escolares, entre tantos outros? Talvez o pesquisador e educador francês Fernand Deligny (1913-1996), ainda pouco estudado atualmente no Brasil, possa nos ajudar a traçar linhas (de fuga, de ação, de pensamento, de erro) para construir novas formas de relação com essas questões que atravessam nosso meio social.
Deligny era, além de um pesquisador, um guerrilheiro. A sua luta de guerrilha se dava nas frentes antimanicomiais. Desde uma experiência de violência que ele presenciou aos sete anos, vinda das mãos desse padrão de sujeito dito normal, ele assume como trajetória de vida a luta contra essas violências, esse padrão de normatividade e todas as lógicas atreladas a ele. Luis Eduardo Aragon (2018) nos conta tal cena com mais detalhes:Aos sete anos, há pouco órfão de pai, morto na fazenda Biette, em 1917, por conta da Primeira Guerra Mundial, (Deligny) encontra-se sozinho, retornando para casa de uma Feira em Lille, quando por entre tendas e barracas encontra uma cabana miserável, caindo aos pedaços, de tábuas unidas por um frontão e encimada por uma gaiola, como uma lanterna de popa de uma embarcação. Na gaiola, quatro ou cinco macaquinhos agachados, gelados e enfraquecidos sob o frio do norte da França. Encolhidos sobre seus ventres buscando se aquecer, com as mãos agarradas as grades, de olhos arregalados olhavam para ele. O que, o então menino, era obrigado a ver o “feria profundamente” e o atordoava de “vergonha e cólera”. Uma ruptura se deu: “lá onde minha dor foi mais grave”, o traço gravado tendo, sem dúvida, marcado o suporte tão profundamente que o atravessou. Ele não estava aterrorizado apenas por estar frente a uma violência, mas também pelo fato de que não poderia explicar para os macaquinhos que não era ele o promotor daquela atrocidade.
Naquele momento era um “semelhante”, um alguém [ON], completamente sozinho no mundo com a dor de não poder se discriminar, aos olhos dos macaquinhos, deste “alguém”, de quem não era, de forma alguma, solidário .Desde então, toda sua trajetória é marcada pela luta contra esse “alguém”, esse sujeito dito normal que promove guerras e violências, e que impõe seu saber-poder sob todos aqueles que se encontram no nosso meio. Em um primeiro período, sua obra é basicamente institucional, trabalhando em setores pedagógicos e médico-pedagógicos de um asilo psiquiátrico (Armentiéres) e na área sócio-jurídica de um Centro de Observação e Triagem de jovens considerados delinquentes. No fim da década de 60, depois de deixar a clínica de La Borde, Deligny acaba se instalando no sul da França, em Cévennes, onde fica até o fim de sua vida . A luta antimanicomial era o seu foco, o que fez com que ele, nesse último período de sua jornada, se aproximasse do trabalho com crianças no espectro autista.
Deligny não via as crianças autistas de modo patológico .A lógica da patologização exige uma pré-concepção de normalidade à qual Deligny não comungava. A vida inteira de Deligny foi dedicada à quebra dessa violenta ideia de normal, que é empurrada goela abaixo, de cada novo ser humano que vem à luz, pelas figuras de autoridade pré-determinadas pelo meio social (pais, professores, médicos, juízes etc.).
Para ele, o autismo é a maior expressão de oposição a essa normatividade.Ele vê no autista um sujeito no qual o sofrimento encontra-se justamente na relação com o outro. Na sua época, as crianças consideradas “desajustadas” eram vítimas de inúmeras violências. Ou eram rejeitadas e abandonadas, enjauladas e internadas, ou eram, além de tudo isso, inseridas em lógicas de adaptação social. Essa tal adaptação mais parece uma tentativa de ajustar a pessoa às normas e costumes do considerado padrão do sujeito, independente se essa pessoa quer ou ao menos precisa disso.
Para Deligny , não importava o sujeito, mas o humano. Não esse sujeito pré-concebido que todo mundo conhece dos pés à cabeça e de cor e salteado, mas o incerto, inconstante, indescritível, múltiplo, rizomático, misterioso, humano. Na sua atitude guerrilheira contra o violento sujeito comum, Deligny achou uma potente oportunidade no “tratamento” das crianças no espectro. Dos anos sessenta até o fim de sua vida, ele se dedicou a umatentativa, a qual se baseava em deixar as crianças patologizadas totalmente livres para existir de suas formas, ou pelo menos o mais livres possível. Ele foi viver com elas em um território particular, separado do restante da sociedade comum.
Trata-se, em primeiro lugar, de uma organização que é de fato e concretamente em rede. Diferentes pessoas vivem em pequenas unidades (aires de séjour) espalhadas em um grande território. Essas unidades são em geral coordenadas por um ou dois adultos (présences proches) e se encontram entre cinco e vinte quilômetros de distância umas das outras. Algumas unidades são simples acampamentos, outras uma pequena chácara com horta ou criação de cabra, outras uma pequena casa com um forno para produção de pão etc…Elas são ao mesmo tempo interligadas, mas livres para experimentar como quiserem a vida no território. As crianças são livres para vagar por todo o território da rede e uma vez por semana pelo menos as presenças próximas se reúnem em uma das unidades, o Serret, o laboratório da rede, para discutir os “projetos”, os diferentes dispositivos e práticas .
É nessa disposição espacial que Deligny se insere com as crianças e alguns adultos. O papel dos adultos não é intervir, interpretar ou significar as ações das crianças, mas implesmente registrar, mapear o agir desses indivíduos sem tentar mudar ou mesmo encontrar sentido nele. Os adultos eram chamados de “presenças próximas”, pois não passavam disso, estavam ali presentes, mas não interviam de forma alguma, a não ser quando muito necessário. As crianças eram livres para se movimentar dentro do território, os adultos faziam desenhos, mapas, desses movimentos. Estavam ali apenas com o intuito de deixar as crianças livres para existirem do seu jeito. Os movimentos e atitudes dascrianças eram registrados, mas não vistos como uma mensagem a ser interpretada.

É a partir dessa tentativade Deligny que vamos buscar pistas na sua obra para pensar novas possibilidades de relações com as crianças autistas. Para tanto, pretendemos explorar a visão de sujeito e de autismo para o autor a partir de seu livro “O Aracniano e Outros Textos”.
Deligny (2015) diz que o ser humano –ao menos em sua maioria –é atravessado pela consciência desde muito cedo, e no intuito de se comunicar com outro ser consciente de ser, cria signos em relação ao mundo, palavras que dão significado ao que a consciência percebe, através da linguagem. E da mesma forma, para o ser consciente de ser, todo agir deve ter um significado, um querer agirpara fazeralgo de forma consciente. O agir considerado inato ou instintivo na criança recém-nascida, é logo substituído pelo agir-fazer consciente que os adultos estimulam desde cedo. Deligny chama esse agir-fazer de “projeto pensado”.Em contrapartida ao projeto pensado estaria o agir tácito a-consciente. Deligny usa a imagem de vários animais, mas principalmente o da aranha, que constrói sua teia com tamanha engenhosidade que, segundo ele, deixa muitos estudiosos de boca aberta pelo simples fato da aranha não ter intenção ou desejar fazer aquilo, ela apenas age. Mas ainda assim, ele aponta que o ser humano dá mais valor a um monte de caixas empilhadas por um macaco a fim de pegar uma banana no alto, do que a esses comportamentos a-conscientes de outros animais, pelo simples fato de que o macaco teve que querer e pensar para conseguir as bananas. Essa imagem é importante para Deligny nos mostrar a obsessão do humano consciente de ser pelo projeto pensado.Esse modo de ser humano –cheio de signos e significados, consciente de ser, hipnotizado no projeto pensado e atravessado pelo querer –é o que Deligny chama de “o sujeito-que-somos”. O termo original usado por Deligny é o “homem-que-somos”. A palavra homem foi substituída por sujeito aqui, bem como em todas as citações, pelo fato de que mantém o mesmo sentido do conceito sem propagar a lógica patriarcal atrelada à palavra homem quando usada para universalizar o ser humano.
O sujeito-que-somos está no projeto pensado desde que tomou consciência de si e, justamente por isso, essa é única forma de ser que ele conhece e suporta como possível. Dessa forma, o sujeito-que-somos aplica a fórmula do projeto pensado a tudo e a todos, e espera que as coisas dancem conforme sua música.
O critério da utilidade tem por referência o projeto pensado, que diz respeito ao sujeito-que-somos “[…] os protozoários, animais primitivos e microscópicos,oferecem-nos a imagem de estruturas, formadas em seu protoplasma, que, na qualidade de esqueletosde proteção e suporte, preenchem do melhor modo possível funções vitais e, além disso, são de imensa beleza e diversidade de formas”. Se o critério para a persistência fosse a utilidade, para que essa diversidade? Esses bons protozoários, que fabricam seuesqueleto por conta própria, chegariam à forma uniforme mais eficaz, mais útil –é o que está acontecendo ao sujeito perturbado e obcecado pela utilidade, que constitui o coroamento do projeto pensado (Deligny, 2015, p. 42).

E é nesse lugar, nesse modo de ser, fora da ordem do simbólico, em contato direto com a realidade –sem a mediação da consciência de ser –que o fazer dá lugar ao mais puro agir. Entende-se que é esse lugar que Deligny chama de aracniano –que se contrapõeao projeto pensado. A aranha tece sua teia assim como uma mão traça uma linha. Escrever é fazer, traçar é agir. Escrever está no projeto pensado, ao passo que traçar é aracniano.
A rede de Deligny vivia uma espécie de guerrilha à medida que lutava contra a atitude asilar do sujeito-que-somos em relação às crianças autistas. Ao invés de tomar essas crianças como “anormais”, isolá-las e incentivá-las a tender à perspectiva da norma, a iniciativa de Deligny buscava “um modo de ser que as permitisse existir, nem que para isso tivesse que modificar o nosso”.
Crie uma aranha numa placa de vidro; talvez lhe venham esboços do tecer, mas no vazio, pois a placa de vidro é o vazio, simplesmente porque não há suporte possível, e os gestos da aranha, obstinadamente reiterados, exatamente os mesmos gestos que permitiriam tecer, tornam-se os tantos espasmos a preludiar a agonia do aracniano (Deligny, 2015, p. 40).
Para Deligny (2015, p. 107), existe a voz e existe a via. A via é a capacidade de emitirmos sons por meio de nossas cordas vocais, enquanto a voz é o instrumento que usamos para nos comunicarmos através de símbolos, ou seja, da linguagem. Na sua visão, o ser autista-não-verbal –que hoje caracteriza-se como grau 3 de suporte –não dispõe deste instrumento, embora as cordas vocais estejam presentes e funcionem, a voz de alguma forma o perdeu ou foi perdida.
E no lugar deste instrumento perdido pelo desuso nasce outro que, segundo ele, não tem o intuito de substituir o que foi perdido e o qual nós, sujeitos-que-somos, somos incapazes de tocar.E o uso desse instrumento faz do ser autista um ser ao qual nada faz falta. Para ele, a realidade é perfeita; satisfeito, ele já não pede nada, nem pergunta nada; e é justamente porque ele nada pede e nada pergunta que ele não percebe a resposta. Alguns dirão que isso é muito lamentável, se eu me fiar no destino reservado aos que são estrangeiros –mas estrangeiros à quem? A nós? Estrangeiros, antes, à linguagem, que se torna então a pátria do sujeito (Deligny, 2015, p. 108).
O sujeito-que-somos, tendo a linguagem como pátria e se considerando universal, coloca o ser autista numa posição de desajuste que precisa ser de alguma forma incorporada ao projeto-pensado.
Deligny segue:Se eu, sem me tomar como padrão, vejo viver o ser autista próximo quando ele olha uma gota d’água que desliza pelas pedras de um muro, parece-me evidente que ele não espera nenhuma outra coisa de nada nem de ninguém; muito menos de algum outro, outro do qual ele sempre pode temer que se meta no que não lhe diz respeito, inclusive em sua felicidade. Com tudo o que a voz pode permitir, ele não se importa nada .

Cada área de estar é uma tela, estando entendido que se trata de uma tela de antes do quadro. Não existe nada ali, senão um espaço estendido. No entanto, certa parte da obra já está toda feita; há uns e há outros entre nós, alguns dos quais não dispõem da linguagem; agir lhes é costumeiro, ao passo que fazer lhes escapa. Foi-nos necessário abordar certa prática do não querer, nem que fosse por respeito ao que aparecia como uma evidência: que todo querer era um forçar, no sentido de que querer no lugar do outro, pelo modo da interpretação, é uma violação, assim como é uma violação pensar no lugar de –colocando-se no lugar, tomando o lugar, ocupando –uma aranha ou uma tartaruga ou tudo o que se quiser para quem nossa linguagem não é mais do que um ruído entre os ruídos (Deligny, 2015, p. 82)
A fim de evitar querer no lugar do outro –ou um forçar querer –Deligny e os outros adultos da rede abandonam o fazer do projeto pensado e se concentram no agir aracniano. Ao perceber a relação das crianças com a área espacial da rede, os padrões de alguns agires pelo território, e inspirado pelo puro agir aracniano dessas crianças que traçam caminhos que escapam o fazer do projeto pensado, Deligny propõe que os adultos se coloquem a traçar, em pequenos mapas improvisados, os movimentos dessas crianças pelas áreas da rede, que ele também chama de linhas de erro. Traçaresse que não tem por objetivo a análise ou interpretação do agir das crianças, mas sim chegar o mais perto possível do agir aracniano que escapa ao sujeito-que-somos.