Pharmakon: Das cócegas à labareda

A TOXICOMANIA É UMA DOENÇA

O acento, então, se desloca: o problema é quem consome a droga. Deslocamento que comporta diferentes

abordagens.

Enfoque bastante em evidência consiste em afirmar que a toxicomania é uma doença. Ou seja, decorre de

distúrbio neurobiológico de origem genética. Essa proposição desconsidera, desvaloriza ou despreza tudo o

que é da ordem da subjetividade ou da cultura. O sonho dessa concepção é tratar a dependência à droga com

outra droga.

Seria a Genética a Astrologia dos tempos atuais? Seria o código genético o novo oráculo ou a nova versão

do maktub? A resposta é não, para a ciência. Mas, a resposta é sim para o discurso científico, que não passa de

ideologia apoiada em termos da ciência.

A supervalorização da influência genética é parte da estratégia da indústria farmacêutica, uma das mais po-

derosas do mundo atual. Constitui propaganda subliminar ou recurso de marketing: a ênfase na genética reduz

a importância de outros fatores e induz ao consumo de medicamentos.

Quando a cultura situa a toxicomania como doença, coloca o problema do lado de quem consome a droga,

mas desresponsabiliza o sujeito. A responsabilidade é atribuída à disfunção orgânica.

A cultura atual traz outra concepção de toxicomania, incompatível com a anterior, mas que, não obstante,

coexiste com ela. Segundo essa outra concepção, a toxicomania é um crime, no sentido jurídico e um erro, no

sentido moral. Ou seja, o problema está do lado de quem consome a droga e o sujeito é responsabilizado como

autor de um crime e de uma transgressão dos costumes. Essa perspectiva traz, obrigatoriamente, o enquadra-

mento num contexto que envolve culpa e punição.

O enfoque jurídico-moral do toxicômano, portanto, considera o sujeito e o responsabiliza no mesmo pro-

cedimento que o inclui no rol do crime, do erro ou do pecado. Porta aberta para a exclusão e para a influência

religiosa.

O grande problema da exclusão (penitenciárias, hospitais psiquiátricos, comunidades terapêuticas) é que ela

não garante, por si só, mutação subjetiva. É possível ficar longo tempo excluído e sair tal como entrou.

E o grande problema da influência religiosa é que ela traz, sim, o apoio de Deus ao pecador angustiado, mas

traz, também, inexoravelmente, sua contraface, o espectro tentador de Satanás.

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About the author

Rodrigo Prinz

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